Por Uma Vida Ordinária

22 abr

Eu não sei explicar ao certo como era a minha vida antes de você. É como se tudo antes fosse apenas uma introdução para a sua chegada, o prefácio do meu livro, e então você tomaria a caneta de mim para começar a escrever as linhas que eu percorreria, todos os caminhos para os quais você quisesse me levar – e eu iria – feliz não importa a circunstância.
O pouco que lembro desse rascunho do “eu” era aquela vontade e o ímpeto de ser sempre muito, se viver rápido. Nada de freios, atravessar todos os sinais sem se preocupar com as faixas, nenhuma curva impossível. Nenhuma rotina, jamais. Não queria companhia e tampouco porto seguro. Eu cria ser um espírito livre, completo, auto-suficiente. Meu casamento era comigo mesmo, e a cada queda eu me levantaria sozinho, minhas lágrimas se secariam em seu próprio sal, eu era indestrutível.
Você mudou tudo.
Com você eu descobri que nada disso me faria feliz, descobri o quanto faltava em mim, e o quanto dessa falta foi preenchido com você e todos os seus erros e virtudes. Eu não quero mais segurar o volante, as mãos trêmulas pelo medo de seguir sozinho por essas estradas esquivas. Pegue o volante, por favor, você sabe pra onde, sabe me conduzir.
É estranho ter ver todas as suas certezas irem embora. Na verdade é desesperador. Mas eu sei que com você nada disso me assustaria, você é o meu equilíbrio.
Naqueles momentos que já exaustos você me fitava sonolento, os olhos embaçados, eu percebia o quanto mudei, porque antes eu não estaria ali, eu não queria contato nem intimidade, mas ali então eu não suportaria se você levantasse e fosse embora, uma vazio ao meu lado.

É difícil, é desconhecido, mas esse sou eu agora, o verdadeiro eu. Eu descobri que só quando perdido dentro de outrém que me finalmente me encontro. Isso é o que eu desejo, você aqui comigo, pra sempre. Você e uma vida ordinária, monótona, e mais feliz impossível. Nesses tempos modernos todos condenam a necessidade no outro, o medo de ficar sozinho. Mais e mais livros e palestras e discursos de como devemos ser felizes por nós, devemos nos bastar, sobre como qualquer relacionamento é uma mentira e que nada dura.
Sejamos soldados lutando com as armas à mão, sejamos fortes e auto-suficientes, isso é o que todos precisam aprender.
Não consigo ser assim, não sou assim.
O que há de errado em ser fraco? O que há de errado em precisar de alguém? O que há de errado em ansiar uma vida chata e antiquada? Será que no fundo não somos todos assim, inseguros e amedrontados repetindo um mantra incessante de auto-afirmação na esperança de que, em algum momento, isso se concretize?

Enfim, eu acho que vivi esse sonho por um tempo, mesmo que tenha sido breve. E eu acreditei que fosse ser para sempre, que fosse durar. Não aconteceu.
Uma hora chegou a verdade, que é fria, implacável. Talvez nada dure pra sempre, afinal.
Não sei ao certo aonde foi que errei, ou erramos. Eu já percorri todos os corredores dessas páginas à procura da falha, aquela rachadura que nos sugou para o vazio e não consegui encontrar. Vai ver desde o início não era pra dar certo, mesmo que fosse amor de verdade. Ou não tenha sido. Não sei. É essa a minha conclusão. Desde que você foi embora eu voltei à essa inércia, àquele inverno cruel em que a névoa nos impede de ver qualquer coisa à frente, e o vento gélido entorpece os sentidos, congela a vida.
Já tentei te culpar, me culpar, culpar o mundo, Deus, os astros, mas nada funciona, justamente porque nada vai trazer você de volta e tudo o que tenho de consolo são essas lembranças, bittersweet memories. Agora é difícil seguir em frente, porque passei a construir o meu mundo ao seu redor, você é ainda tudo o que eu tenho.
Mas ao fim o tempo passa, e nós crescemos, e essas feridas vão se fechando e nos deixando mais ásperos, nós envelhecemos e nos calejamos, e então nada vai doer tanto assim, eu espero. Agora a minha único certeza é que estou aprendendo a seguir sem você, de um jeito ou de outro, porque é o máximo que consigo fazer, aos tropeços. Nós ficamos pra trás, em algum lugar ensolarado do passado, onde a memória se alegra em visitar.

Logo esse amor não vai mais me machucar, e esse sentimento vai permanecer aqui guardado, algo só meu, sem compreensão, até que um dia você volte, quem sabe.

Deus, eu não posso te amar tanto assim.

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All The World In One Grain Of Sand

19 mar

Tão estranho não conseguir ter controle sobre o que sinto. Algumas vezes é como se tudo o que se movimenta dentro de si não coubesse num espaço tão pequeno e transbordasse, quer seja pro bem ou pro mal. Não é uma escolha te querer tanto, ou sentir falta de você a cada vez que sinto o cheiro do seu cigarro, aquele odor da primeira tragada, tão efêmero e irresistível. Minha boca não consegue esquecer o seu gosto, meus lábios ainda estão úmidos desde a última vez que se encontraram com o seus; o cheiro da sua pele contra a minha ainda circunda as minhas narinas. Como tirar os seus olhos de mim a cada vez que fecho os meus? Como eles podem parecer tão vivos, quase como se estivessem realmente ali? E pensando bem, talvez a culpa seja deles, os seus olhos. São sempre eles que me prendem, que me derretem, que me hipnotizam e então eu estou indefeso. Faça o que quiser de mim, já me deixou vulnerável, agora sou sua vítima. Ou cúmplice, não sei.

Volta e meia eu tropeço em algum motivo pra ir embora e deixar toda essa insanidade pra trás. A névoa estica seus braços e me sufoca, sussurra coisas que eu não quero acreditar.
Não vou.
Não posso deixar você, não quero perder toda essa profusão de cores que você trouxe, não vou voltar ao mundo monocromático, não enquanto isso ainda for real.
Então eu fico, e vou ficar aqui pra sempre, porque ainda há esperança.
Quem sabe você descobre que a minha risada te acalma sempre que a vida lá fora se torna insuportável? Quem sabe você se acostuma com o meu jeito de falar demais? Quem sabe você se pega pensando em mim, assim, involuntariamente? Quem sabe você sente falta de me olhar enquanto eu ainda durmo? Quem sabe você não descobre que o seu lugar é aqui, comigo, pra sempre?

To Be Safe Again With You

31 jan

Ao pé da montanha o vento não era tão frio, e o solo menos espinhoso e dentilhado de pedras escorregadias. Por ali ainda podiam se ver pessoas e animais passando por entre as trilhas, diferente da subida ao topo, onde as rochas espinhosas ameaçavam quaisquer um que as ousasse desafiar, vencer a escalada e encarar o mundo do topo. Não era possível fixar qualquer equipamento de segurança para facilitar a escalada, o lodo e musgo – acumulados a séculos – impediam a fixação de qualquer coisa, deslizavam por entre as mãos dos desavisados e para eles não reservava destino doce. Ali era a nossa morada, ao pé desta Montanha dos Tormentos, mas que guardava tantos segredos em seus cascalhos e pedregulhos, desfiladeiros que escondiam vidas inteiras, gritos e choros infindáveis. Ali, os poucos que possuíam – não a força – mas a loucura, a necessidade, a habilidade, o ímpeto… Quem saberia dizer? Mas haviam esses, que como eu se aventuravam por entre os rochedos que se banhavam de sangue e lágrimas.

A rotina da procissão jamais se quebrava. Você nunca soube, e jamais quis que soubesse. Mas todos os dias, antes de qualquer luz senão a das estrelas inflamar o céu da noite, eu me levantaria, poria aqueles trajes pesados de lã – proteção contra os ventos gelados que cortavam a pele e feriam a os lábios – além dos sapatos, sabe-se lá feitos do quê, talvez de coragem para enfrentar aqueles caminhos turvos sozinho. A lanterna e o óleo em mãos. O medo então me invadia, e se dessa vez eu não conseguisse, se por descuido tropeçasse num daqueles vãos que desenhavam a colina? Então uma última visão de você, impassível em seu sono, e então eu sei que vale a pena, qualquer coisa se torna pequena.

Lá fora o frio e a neblina sempre andam de mãos dadas comigo, sem se importar com a minha vontade, e me acompanham até o topo, mais fortes e presentes a cada passo. Todas essas pontas rochosas e vales dissimulantes já são velhos conhecidos, e, apesar de difícil a caminhada, e dos cortes e calos que presenteiam, já sei por onde ir e com a vela à minha frente sigo, sempre acima, a escadaria aos céus, se pudesse assim chamar o ápice deste elevado. Mesmo após tanto tempo nesta peregrinação diária não me salvo de um ocasional que me custaria a vida, não fosse a minha pele já espessa pelo atrito com a superfície áspera, e minhas mãos fortes por segurem o fio da vida em suas pontas, tudo sendo apostado nas fibras dos músculos. Não é incomum me faltar o fôlego, e então vir o receio de não conseguir fazer à tempo, e então, como eu voltaria antes do amanhecer, como desta forma? Não, jamais.

Apesar de excruciante, o caminho também serve como um meio de exorcizar todo esse peso, toda a carga que eu guardo e preciso liberar. É dito em certas culturas que o sangue contém as impurezas da alma, então para se purificar e retirar toda a carga negativa seria necessário sangrar, e deixar fluir tudo aquilo que envenena e corrói. Não sei se é verdade, mas talvez funcione comigo durante esta jornada, talvez por isso eu seja sempre capaz de chegar ao topo. Todos esses arranhões e machucados, as feridas abertas, por fim me liberam de parte do fardo que carrego me tornam leve para subir cada vez mais, me dão força para fazer o que é necessário, aquilo que me mantém vivo, que me deixa perto de você, que me impede de te perder, pra sempre.

É no topo, finalmente, que eu termino o meu dever. A parte que mais dói, porém a mais importante. Lá onde eu olho dentro de mim, como quem retira objetos de uma bolsa de entulhos vou atirando tudo o que há dentro na fenda. A cada peça que cai eu observo atentamente a queda, como vai se estilhaçando ao bater contra as pedras, a aparência horrível, irreconhecível. E então o som. Ela atinge o fundo, e é esmagada pela força da gravidade e por seu próprio peso. É assim que me livro de tudo, todos os dias. E eu penso, sempre, como seria se meu corpo um dia caísse desse penhasco e fosse de encontro as rochas, deformando após cada choque, e por fim o barulho final, aquele último grito de vida que imediatamente se esvairá. Meu corpo ali, dilacerado ao fundo deste fosso, junto de tudo aquilo que me pertencia, que me prendia, todas as extensões de mim que jamais conseguiria carregar, que não permitiriam os nossos dias juntos. Mas ao final estou salvo, e passo por tudo isso antes que você desperte para me sentir feliz, leve, pronto para te receber por inteiro, e estar seguro, mais uma vez, com você.

Dancing On My Own

25 dez

Eu me lembro de um tempo em que eu ainda acreditava em mãos dadas e cuidados ao longo do caminho. Acreditava em reciprocidade, em sintonia, em ser possível confiar e se entregar à alguém, à alguéns. Dava tudo de mim, de olhos fechados e confiante – fé – isso era o que eu possuía: fé nos outros, fé na bondade, fé na honestidade, fé na companhia, fé no abraço, fé no amor. Mas eu errei, errei em ser tão inocente, juvenil, bobo, de acreditar demais em qualquer um senão em mim, em quem eu era, ou pensava ser, em tudo aquilo que pensava ser certo, não o que sentia.

Caí, e não foram poucas vezes, até hoje guardo nos joelhos a marca dos arranhões. Cicatrizes que me lembram o sangue quente e a dor que seguiram o tropeço, porque não havia ninguém pra me segurar. Aprendi a ser só, a me bastar, a não esperar nada de ninguém. Eu poderia viver com todos, rir com todos, sair com todos, mas sempre certo de que seria traído, abandonado, enganado, ignorado, isolado – pois só dessa forma eu jamais me machucaria de novo por me iludir com as ações de outrem.

Então agora, se eu estou em casa e sinto vontade de ir ao cinema, eu vou, sem titubear, sem ligar para ninguém, salvo raras ocasiões e por educação. Eu faço meu horário, eu vou aonde eu quero, eu faço o que sinto vontade. Eu não espero que me dêem presentes de aniversário ou Natal, afinal, nunca os recebi mesmo, portanto eu me presenteio, eu aprendi a me bastar. Eu ando pelas ruas, passeando entre as vitrines das livrarias e cafés, tomo o tempo que eu quiser e fazendo o que quero, sem acordos de onde ir, quem agradar. Nada mais de abrir mão de um desejo para satisfazer o de outro.

Nos sábados à noite não sinto falta de ninguém. Abro uma garrafa de vinho, encho uma taça, escolho qualquer música e danço sozinho pela casa, na penumbra. O compasso a dois, três, quatro, é muito difícil, é tortuoso, de um ritmo desconhecido, sem fluidez, sem leveza. É falho, esquivo, pausado para que os dançarinos se encontrem na dança e tentem prosseguir da melhor forma possível. Não. Eu danço sozinho, instintivamente, natural, de improviso e sem barreiras, sem limites, tão melhor, dançar comigo mesmo… Ter apenas a mim mesmo para dançar.

About Tunels, Lights And What Love Gave Me

13 dez

Não é lugar bonito de se estar, tampouco desejável, mas não há opção, a única coisa possível é tentar sair de qualquer jeito dali ou só esperar o pior, perecer, sumir em meio ao nada. Não há luz, não há calor, não há companhia – por mais que existam pessoas à sua volta ali – elas não podem entrar. Um túnel tão fechado que lhe falta o ar, onde tudo é sujo e só há miséria, só há tristeza, só há desespero, é inútil tentar gritar por ajuda, não há como ser socorrido da lama e dos ratos que circundam e ferem os pés, a doença que está em todo lugar, torna o ar denso, intragável, opaco. É possível sentir a febre percorrer o corpo, mas não arde, é fria, mas sabe-se que é febre pois o suor não é frio, mas as lágrimas não são frias, mas o resto, todo o corpo, tudo em volta, todas as pessoas, tudo está congelando, nada tem cor, nada tem sabor. Não é comum encontrar cacos de vidro no chão, ou então galhos impossíveis de se enxergar, que cortam a pela quando ao se escorar nas paredes em busca de algum apoio senão as próprias pernas, a própria força, que já se extingue, se esvai por entre os dedos, através do olhar, da respiração.
A única forma de sair de toda essa podridão é encontrando luz, encontrando um caminho, mesmo que não haja nada para iluminar o caminho. É assim que se encontra, não se sabe ao certo de onde e nem como, talvez só por que, uma luz interior, um brilho que irradia de qualquer lugar dentro de si, e busca-se, agora mais atento de todas as fendas e valas, a saída desse pesadelo. No entanto, existem algumas pessoas que encontram uma luz tão forte, tão verdadeira, tão densa, que mesmo fora dali continuam emanando esse brilho, continuam a iluminar, não mais uma estrada traiçoeira, apenas, mas os outros, qualquer um que entre lhes veja. Um bruxulear tão doce e de cores diferentes, sobrenaturais, que nem mesmo o sol consegue ofuscar, pois possuem outra dimensão, ultrapassam a visão, podem ser quase que apalpadas – e daí que vem o calor que passam, o conforto, a serenidade.
Quando questionados sobre, muitos afirmam “Aposto ser o amor o responsável” – não, jamais. Pelo contrário.

O que o Amor me deu? O Amor me disse que eu era não era bonito, não era capaz, não era inteligente o bastante, não era o suficiente. O Amor me estuprou, me machucou e me fez chorar. O Amor me deixou sozinho, me deixou doente, me fez ser inseguro. O Amor me bateu, me disse que eu não tinha valor, me jogou na sarjeta. O Amor me deixou no frio, me lançou no inferno e disse que eu era sujo. O Amor me não me respeitou, me enganou e me roubou a esperança. Isso foi o que o Amor me fez, isso foi o presente que eu ganhei ao me entregar ao Amor, acreditar no Amor, desejar o tão sonhado Amor.

Não, não foi o responsável – talvez apenas o culpado.

Fragile Tension

18 out

É comum dizer, mas incrível como percebemos o quanto alguém significa para nós quando estamos prestes a perdê-lo. Ainda mais quando se trata de uma pessoa tão iluminada, tão radiante, tão cheia de vida, que emana tantas cores e contagia tanta gente… Como aceitar, sequer a possibilidade, não ter mais alguém assim? Não há como, não é escolha se conformar com uma perda tão grande.

E tantas conseqüências essa tragédia trazem consigo. E nossas vidas? E o valor delas? E o nosso valor? E o que estamos fazendo de nossas vidas? Sou feliz? Se partir agora, vou embora completo, satisfeito? Será que faria falta minha presença? O que levei daqui? Nada? Rancor? Frustrações? Como viver bem? Como aproveitar a vida? Como superar tanta miséria?

Não sei, só consigo chorar.

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